Passou no jornal,
entre cenas de horror,
a história de um gato
que atravessava o rio
numa balsa
com seu dono.
Por descuido,
o gato saltou
em outra barca
que no momento cruzava
em sentido contrário.
O gato se foi em viagem e
nunca mais foi encontrado
por seu dono.
Tão sofrida de tudo,
eu vejo no gato um terremoto,
os escombros, um estupro,
a floresta incendiada,
a criança esfaqueada.
Já não sei
pelo que devo sofrer
ou se é justo sofrer
pelo gato
ou ainda se é que o gato
ele mesmo sofreu.
Mas eu sofri
continuo sofrendo
pelo gato
sem querer abandonado.
Sem nenhuma medida
sofro profundamente
com a imagem do gato
sem dono
sem rumo.
É inútil
mas o que eu posso fazer
por ele
e talvez
por mim
é um poema.