não contêm
o depois do depois do depois
entre as palavras
e as coisas,
o real do nosso tempo:
um acúmulo bruto de horror.
que outrora serviu ao passado
e ao futuro
é hoje um baiacu morto
na areia da praia
incômodo
inútil
inchado
denunciando que morreu acuado
incapaz sequer
de explodir.
***
Ao menos, o baiacu que trouxe da praia e agora
apodrece no fundo da minha gaveta
não foi comprado.
Enquanto se dissolve na decomposição
invisível da terra
salva-se de que lhe imputem
um preço.
Se tudo der certo,
o baiacu que veio da praia
como vem uma concha
sumirá
deixando apodrecida a gaveta
(que não será jogada fora
porque essa, sim,
foi comprada
e os tempos de crise não permitem
descartá-la)
o que ficará
é o mau cheiro repentino que sobe
levantando a suspeita de que há algo
morto
pela casa.