quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Pós-tudo

As formas esgarçadas da língua
não contêm
o depois do depois do depois

Nos vincos enlarguecidos pela fricção
entre as palavras
e as coisas,
o real do nosso tempo:
um acúmulo bruto de horror.

E a poesia
que outrora serviu ao passado
e ao futuro
é hoje um baiacu morto
na areia da praia

estranho
incômodo
inútil

inchado

denunciando que morreu acuado
incapaz sequer
de explodir.


***

Ao menos, o baiacu que trouxe da praia e agora
apodrece no fundo da minha gaveta
não foi comprado.

Enquanto se dissolve na decomposição
invisível da terra
salva-se de que lhe imputem
um preço.

Se tudo der certo,
o baiacu que veio da praia
como vem uma concha
sumirá
deixando apodrecida a gaveta

(que não será jogada fora
porque essa, sim,
foi comprada
e os tempos de crise não permitem
descartá-la)

Da ida já esquecida à praia,
o que ficará
é o mau cheiro repentino que sobe
levantando a suspeita de que há algo
morto
pela casa.

Poema de um cão agonizante

O cão deste poema
é um cão velho.

Na grama onde outrora correu,
resta caído, incapaz de mover-se.
Chegou ali por mim carregado,
carinhosamente estendido
tal uma marioneta
em desmantelo.

Meu cão agoniza; ele está velho
e doente.

Pelo seu corpo se espalham tumores
fazendo parecer que engolira as bolinhas
com que um dia tanto brincou.

Enquanto o limpo,
dezenas de formigas
frenéticas
sobem pelo seu corpo
como se corressem para saquear
partículas invisíveis da vida que
desesperada
tento preservar. 

E eu
que sempre respeitei as formigas
como forma improvável
de existência
matei-as todas
comprimidas entre os meus dedos
e a terra.

Elas não feriam o meu cão.
Embora apressadas, eram
delicadas,
diligentes operárias
da decomposição.

Eu é que não suportei ver
a intimidade entre elas e
o meu cão.
Não suportei que elas pudessem
dar a ele
o que ele precisava
mais do que eu podia.

Ali do chão, o meu cão me olha
sempre devoto,
balança seu rabo
devagar,
me mostrando que ainda está
vivo.

Deitado, ele agoniza,
e eu também.

domingo, 2 de abril de 2023

Suposições de um terremoto (2)

Após 128 horas embaixo dos escombros
sobreviveu um bebê.

54 dias depois
descobriram
que a mãe estava viva

para eles, um alívio
para mim, não importa

54 dias atrás
eu já havia escrito um poema
sobre um bebê
sozinho nos escombros.

domingo, 12 de março de 2023

Poemas de horror - Poema nº 1


Passou no jornal,
entre cenas de horror,
a história de um gato
que atravessava o rio
numa balsa
com seu dono.

Por descuido,
o gato saltou
em outra barca
que no momento cruzava
em sentido contrário.

O gato se foi em viagem e
nunca mais foi encontrado
por seu dono.

Tão sofrida de tudo,
eu vejo no gato um terremoto,
os escombros, um estupro,
a floresta incendiada,
a criança esfaqueada.

Já não sei 
pelo que devo sofrer
ou se é justo sofrer
pelo gato
ou ainda se é que o gato
ele mesmo sofreu.

Mas eu sofri
continuo sofrendo
pelo gato
sem querer abandonado.

Sem nenhuma medida
sofro profundamente
com a imagem do gato
sem dono
sem rumo.

É inútil
mas o que eu posso fazer
por ele
e talvez
por mim
é um poema.


terça-feira, 8 de agosto de 2017

Intervalinho pra lhe dizer que te amo

 

Entre uma tarefa

e outra
Na correria da caneta
que risca as linhas
da minha pequena
agenda,
eu rabisco um poema
desajeitado:

na verdade
nem chega a ser um poema
é só
um bocado de
saudade.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Da janela do avião (ou Vertigem)


Eu escreveria um lindo poema
se meus olhos pudessem ver.

Eu escreveria versos
sobre aquelas casinhas de fósforo
tão ao longe...
Mas ficam tontos os meus olhos.

Se os meus olhos pudessem ver,
eu escreveria sobre o mar branco
(de branca dor)
por onde navega este avião.

Escreveria sobre a linha reta
que o homem traça
ensinando geometria aos campos.

Escreveria sobre os olhos de Deus,
mas os meus próprios olhos
não são capazes
de enxergar.

Faria estrofes sobre as cidades
que se expandem
e se espalham,
infinitas.

Escreveria sobre o destino
daqueles carros
que lá embaixo se movem.

E sobre as gentes
que dentro desses carros
sobem e descem as ruas
de suas vidas.

Eu escreveria sobre a loucura
das estrelas
mas não consigo
mirar.

Em tempo, 
já estou em solo outra vez 
e deixo 
o mundo
para um poeta de olhos mais firmes.


quarta-feira, 1 de julho de 2015

Poema de maré e seca

Tudo quieto
e seco:
não chove
em meu coração.

Parece pacífico
porque não há sangue
mas não sangra porque
nada escorre:
em peito agreste,
lágrima não pinga -
vira poeira.

Coração caatinga
castigado
tem sede.

Boca quer gritar
pedir ajuda
mas saliva sem água
é cimento
que a mantém
cerrada.

Coração em crosta
de açude enrugado
espera vazio
cair a seiva em suas
veias abertas,
mas céu nada oferece
senão fogo
dissipado no ar.

Coração febril
lateja
sob o sol em brasa
de sua terra despovoada.

Sozinho,
aprende que viver é
resistir.

E morto, mudo, magro
sobrevive.

Coração deserto
é flor sem viço de um jardim
de ossos.
A única fonte que o umedece
é a fé nos versos
do profeta:

O ser tão vai vir amar
e amar
virá a ser tão.

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