segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Só por hoje

Eu sei que é uma questão
de matemática:
eu caibo em seus braços.
Seu abraço
tem a minha medida.

Mas só por hoje, amor, deixe
essa matemática de lado e 
descanse seus metros
em meu pequeno colo.

Só por hoje, amor, deixe
que eu lhe conduzo
Deixe que eu lhe carrego
Deixe que eu lhe consolo.

Só por hoje, amor, chore
que eu enxugo
Caia, que eu seguro
Peça, que eu resolvo

Eu resolvo seu mundo
num cafuné devagar
E desfaço suas guerras
com um beijo seguro.

Apenas esta noite, amor,
me entregue seus medos
Se deite assim frágil e 
adormeça suave
Enquanto eu rezo seu sono.

Só por hoje, amor:
caiba inteiro em meu colo... 
Só por hoje.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Imenso amor desconhecido

 Lhe esperei tanto, amor

Lhe esperei na porta do cinema
Lhe esperei num dia de chuva...

Guardei uma canção de Chico
para entregar quando você chegasse.

Procurei em tantos olhares
os seus olhos;
confundi tantas palmas
com as das suas mãos.

Construí um lugar na cama,
planejei um recital na varanda,
reservei espaço no criado-mudo 
para a nossa foto na praia.

Abasteci a geladeira
com sua cerveja favorita
Passei na padaria e comprei
aquele chocolate para a sobremesa.

Organizei viagens pelo nordeste e escolhi 
os sambas pra gente cantar na estrada.
Lembrei do filtro solar pra você esquecer 
de passar, e à noite eu lhe mimar entre lençóis
de pousadas baratas...

Arrumei e encostei as nossas malas na parede da sala,
e  enquanto lhe esperava, adormeci
no sofá, com a maquiagem no rosto e
sem tirar os sapatos.

Entre sonhos e o barulho da tv,
acordei e, olhando pro relógio, pensei em lhe dizer
que desta vez era imperdoável
atrasar.

Mas quando procurei por você
percebi
que eu não tinha um nome
para lhe chamar.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Retrato de uma alma abandonada



Eu? Eu entardeci muito cedo. Mal despontara a aurora de minha criança e já era tempo de recolher-se a casa... Junto ao sol, também se pôs minha leveza e credulidade pueril, restando em mim apenas a terrível melancolia do lusco-fusco. É por isso eu ainda nem completara a décima primavera, mas então padecia com a tristeza que abate a cidade no limbo dos astros - quando já findou o dia, mas a noite ainda não veio.
Nessas horas busquei ansiosa um olhar cúmplice que guardasse ao fundo, sempre ao fundo, um sutil desespero: o desespero de existir e saber que se existe. Mas as crianças são por demais distraídas e os adultos fugiam de minha pupila como quem apressa o passo para ignorar o pedinte. Tudo que desejava não era nada além de um abraço apertado, um longo abraço, que num suspiro quente sanasse o meu vazio. Enfim eu pude descobrir que a outra face do desespero é a solidão: e restei sozinha, mendiga da alma...


v

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Eu, João e Maria

Tenho rabiscos espalhados pelo
corpo
pela casa 
pela estrada.

Numa espécie de João e Maria,
abandonei versos 
pelo caminho
para não me perder.

Deixei  por aí
pedaços de poesia
para não me esquecer
de quem eu sou,
para me lembrar
pra onde eu vou 

para saber por onde voltar.

Deixei rimas como pistas
tatuadas nas paredes,
porque caso eu enlouqueça
algo precisa me salvar de
estar à deriva
em meu próprio labirinto.

Me preveni espalhando palavras
pelas esquinas
para que quando eu envelheça
esqueça de nomes e datas
mas que eu não morra enquanto
estiver viva.

Fiz um estoque de estrofes,
melodia engarrafada,
suprimento
para a grande guerra fria
que inverna
em minha alma.

Líricos vestígios
que me recordem
por onde eu passe:
se tudo mais falhar,
o poema é um abrigo.

v


domingo, 8 de setembro de 2013

Manifesto pro homem feminista

Não adianta, homem,
salvar as mulheres na luta
se tua própria mulher
você trata como puta,
quando me deita em sua cama,
recita versos pra dizer que ama
e no dia seguinte
me paga com silêncio.

Pois veja, homem,
tire o seus óculos e veja
me veja.

Tem uma mulher em sua frente
que sente
que sofre
que quer mais do que data no calendário e
igualdade de salário

Tudo isso vale o grito,
mas igualdade mesmo
é ter um mundo que me veja.

Que veja as marcas dos tapas
que eu levei fora da transa,
por um homem que não me bate
mas que ignora meu olhar,
joga fora minha doçura,
não assume que procura
e vai embora sem enxergar que abandona.

Igualdade é viver em um mundo
que não me estupre desde pequena
com matemáticas absurdas sobre o que dizem ser amar.

Onde pra ter
eu tenho que negar,

e pra negar
eu tenho que fingir aceitar.

No fundo, o que esse homem
tá tentando me ensinar
é que eu não tenho direito de querer.
Tenho que calar
e aprender a encantar
sendo bonitinha
e covarde,

porque tenho que me deixar convencer
que minha paixão é loucura
e tenho que saber engolir
quando ele me faz ferir
com esse papo pós moderno
de que pode fugir porque não tem compromisso sério.

Nem parece o mesmo homem
que de bandeira levantada
defende respeito, compromisso e feminismo
E que tanto fala em companheirismo
sem verdadeiramente compreender
que ser companheiro é mais do que ideologia
que revolucionar é mais do quer romper burocracia.
e que acompanhar é mais do que marchar.

Ser companheiro é
não ter receio de cuidar
dessa que você invade com um beijo
e depois some,

dessa a quem você estende a mão
pra que se entregue nua
e depois despreza.

Não adianta, homem,
gritar coragem nas ruas,
se em teu próprio asfalto é você
que tem medo

e não sabe pedir ajuda.

v



quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Humanidades

Sou abraço apertado na hora do choro
Sou choro besta em filme romântico
Sou pés namorando embaixo dos lençóis
Sou sol em pleno domingo
Sou achar o que estava perdido
Sou presente de natal
Sou comida de festa no dia seguinte
Sou segredo ao pé do ouvido
Sou fevereiro em carnaval
Sou cachorro lambendo o rosto
Sou acordar com tudo pronto
Sou dançar desengonçado
Sou primeiro namorado
Sou se deitar emboladinho
Sou você pequenininho
Sou conversar até tarde no telefone
Sou cantar bem alto no chuveiro
Sou comida de vó na hora da fome
Sou enfiar o pé na lama
Sou cheiro gostoso no cangote
Sou ficar até tarde na cama
Sou riso até doer a barriga
Sou cheiro de terra molhada
Sou rede na varanda
Sou descobrir dinheiro no bolso
Sou enfiar o dedo no bolo
Sou cabelo bagunçado
Sou mãe fazendo carinho
Sou Chico cantando baixinho
Sou férias começando
Sou xixi depois do aperto
Sou pôr-do-sol alaranjado
Sou maracatu de baque virado

Sou detalhes
Sou nuances
Sou pequenas humanidades

v
2008


Ouça este poema recitado:

sábado, 6 de julho de 2013

Poeminha testamento


Para Maria,
deixo aquele vestido
que há muito me havia pedido.

Para José,
deixo pequena renda
que lhe sirva em sua venda.

Para João,
deixo meu violão
e que sempre me lembre num samba-canção.

Para você
deixo uma arca
guardada embaixo da cama
cheia de rimas perdidas.


v
2008

sexta-feira, 21 de junho de 2013

 Cada passo que eu ouço

subindo e
descendo as escadas,
meu coração dispara
pensando ser você.

É só um sobressalto
porque no fundo eu reconheço 
o barulho do seu passo.

Não é muito lento
nem muito rápido.
Não é leve
nem pesado.
Tem ritmo, e uma força
de quem sabe que está chegando.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Poema 412 - Uma canção de saudade

 Ela entrou na cozinha
chupou caju
e foi embora
com um ranso na boca.

Eu entrei na cozinha
ela havia comido tudo
e fui embora
com um ranso na boca.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Dedicatória sem livro

 E para me despedir,

eu lhe deixo um buquê
de rosas,
de margaridas,
delírios.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Mistérios do coração de um sabiá

De que adianta, passarinho,
qu'ocê volte à minha janela
sem vontade de cantar?

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Subjuntivos desimpossíveis

Imagine
se o galo cochila
e perde o nascer da manhã?!

Imagine
se a montanha russa
vai até Maomé
na Arábia?!

Imagine
se o gato de botas
cria calos
e resolve andar descalço?!

Imagine
se o fim do arco-íris
é o começo de outro
que se inaugura na China?!

Imagine
se a namorada recebe um buquê
de couve-flores vermelhas?!



Imagine
se o tigre de bengala
desiste
e compra uma cadeira de rodas?!

Imagine
se os arranhas-céu se arrependem
do arranhão
e pedem desculpas às estrelas?!

Imagine
se você enfim me ama
e eu também
amo você...?