quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Poema de um cão agonizante

O cão deste poema
é um cão velho.

Na grama onde outrora correu,
resta caído, incapaz de mover-se.
Chegou ali por mim carregado,
carinhosamente estendido
tal uma marioneta
em desmantelo.

Meu cão agoniza; ele está velho
e doente.

Pelo seu corpo se espalham tumores
fazendo parecer que engolira as bolinhas
com que um dia tanto brincou.

Enquanto o limpo,
dezenas de formigas
frenéticas
sobem pelo seu corpo
como se corressem para saquear
partículas invisíveis da vida que
desesperada
tento preservar. 

E eu
que sempre respeitei as formigas
como forma improvável
de existência
matei-as todas
comprimidas entre os meus dedos
e a terra.

Elas não feriam o meu cão.
Embora apressadas, eram
delicadas,
diligentes operárias
da decomposição.

Eu é que não suportei ver
a intimidade entre elas e
o meu cão.
Não suportei que elas pudessem
dar a ele
o que ele precisava
mais do que eu podia.

Ali do chão, o meu cão me olha
sempre devoto,
balança seu rabo
devagar,
me mostrando que ainda está
vivo.

Deitado, ele agoniza,
e eu também.