Assassinar-me-ei nos próximos versos
cravando uma mesóclise em meu peito
Ao olharem meu corpo
dirão:
foi suícido.
Perfuração verbal por um pronome oblíquo.
Porém, nunca saberão
que o pronome era outro.
O verbo é o mesmo,
quem mudava era o morto.
Uma curta escapulida
tornou meu ato reflexivo.
E se já está no papel,
também já está dito.
Em nada me custa morrer
Mas se o futuro pudesse prever...
O que já se escreveu,
assim teria escrito:
Assassinar-me-eu.
v
segunda-feira, 25 de agosto de 2014
quarta-feira, 20 de agosto de 2014
Poema naturalmente incompleto
Pus a cadeira na varanda
pra ver o dia morrer...
Você vinha devagar pela estrada
e eu lhe acompanhei
com os olhos
até você sumir.
pra ver o dia morrer...
Você vinha devagar pela estrada
e eu lhe acompanhei
com os olhos
até você sumir.
Mais mistérios do coração de um sabiá
Passarinho tem saudade.
Quando longe, tem vontade;
quando perto, sente medo
de que pousando em meu peito
fique preso numa gaiola.
v
Ouça este poema recitado:
Quando longe, tem vontade;
quando perto, sente medo
de que pousando em meu peito
fique preso numa gaiola.
v
Ouça este poema recitado:
sábado, 31 de maio de 2014
domingo, 16 de março de 2014
Há tanta gente
Há tanta gente nas ruas
indo
parando
voltando,
correndo,
seguindo.
Há tanta gente
atravessando,
cruzando,
caminhando.
Há tanta gente
subindo e descendo
escadas
subindo e descendo
elevadores
Tanta gente nos carros
ou apertadas nos ônibus
Tanta gente,
com tantas histórias
e tantas coisas a dizer:
gente nos bares, nas noites,
nas praias, nas salas, nos shoppings
nas calçadas.
Há tanta gente passando.
Por que o meu olhar
parou em você
e ficou?
indo
parando
voltando,
correndo,
seguindo.
Há tanta gente
atravessando,
cruzando,
caminhando.
Há tanta gente
subindo e descendo
escadas
subindo e descendo
elevadores
Tanta gente nos carros
ou apertadas nos ônibus
Tanta gente,
com tantas histórias
e tantas coisas a dizer:
gente nos bares, nas noites,
nas praias, nas salas, nos shoppings
nas calçadas.
Há tanta gente passando.
Por que o meu olhar
parou em você
e ficou?
sexta-feira, 7 de março de 2014
A verdade sobre o meu canto
Passarinho,
eu fiz um ninho
bem na beira da janela
Passarinho,
eu trancei os galhos
Passarinho,
eu enfeitei de flores
Passarinho,
eu trouxe comida e água
Mas, passarinho,
não pouse não
porque meu assobio é egoísta
e no fundo eu desconfio
que te amo
porque você voa.
bem na beira da janela
Passarinho,
eu trancei os galhos
Passarinho,
eu enfeitei de flores
Passarinho,
eu trouxe comida e água
Mas, passarinho,
não pouse não
porque meu assobio é egoísta
e no fundo eu desconfio
que te amo
porque você voa.
v
domingo, 23 de fevereiro de 2014
Historinha de meu coração
Todos os dias, muitos passarinhos vinham cantar à minha
janela. Pássaros verdes, amarelos, vermelhos, azuis. Mas foi o passarinho da
asa quebrada que eu escolhi para ser meu passarinho. Meu passarinho tinha um
canto triste – e por isso eu o amava tanto. Meu passarinho, com sua asa
quebrada, voava baixinho... Ele não sofria por isso. Mas eu sofria muito. E se
meu passarinho tentasse voar alto, caísse e morresse? Passei meus dias tentando
consertar aquela asa. Eu só queria que eu e meu passarinho
pudéssemos voar alto, incrivelmente alto. Tentei de tudo. Até que contratei o
melhor veterinário e contei de meu passarinho. O veterinário me disse que se
algum dia eu explicasse a meu passarinho que ele não podia voar alto, ele
pararia de cantar. E se ele parasse de cantar, ele morreria. Fiquei dilacerada.
Então era isso, eu e meu passarinho nunca voaríamos alto. Mas nem assim eu
desisti de salvá-lo. Continuei tentando soluções. Eu acreditava que, de alguma
maneira, com muito esforço, eu e meu passarinho finalmente voaríamos juntos. Acontece
que, certo dia, ele me convidou para as alturas e não havia o que fazer: ou ele
voava alto e morria ou ele não voava, parava de cantar, e morria. E foi o que aconteceu.
Meu passarinho tentou voar, caiu e morreu. Agora, quando os pássaros coloridos
vêm cantar à minha janela, eu choro, choro, choro. Não por saudades de meu
passarinho, mas porque esses pássaros que aí fora cantam não têm a asa quebrada
para que eu possa tentar salvá-los.
v
*Por 14 de Janeiro
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