segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Crime passional

Assassinar-me-ei nos próximos versos
cravando uma mesóclise em meu peito

Ao olharem meu corpo
dirão:
foi suícido.
Perfuração verbal por um pronome oblíquo.

Porém, nunca saberão
que o pronome era outro.
O verbo é o mesmo,
quem mudava era o morto.

Uma curta escapulida
tornou meu ato reflexivo.
E se já está no papel,
também já está dito.

Em nada me custa morrer
Mas se o futuro pudesse prever...
O que já se escreveu,
assim teria escrito:

Assassinar-me-eu.

v

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Poema naturalmente incompleto

Pus a cadeira na varanda
pra ver o dia morrer...

Você vinha devagar pela estrada
e eu lhe acompanhei
com os olhos
até você sumir.

Mais mistérios do coração de um sabiá

Passarinho tem saudade.
Quando longe, tem vontade;
quando perto, sente medo
de que pousando em meu peito
fique preso numa gaiola.

v

Ouça este poema recitado:



sábado, 31 de maio de 2014

Poemínimo

Hoje encomendo um poema
tão pequenininho
que não diga quase nada:
diga apenas que eu
amo você.

domingo, 16 de março de 2014

Há tanta gente

 


Há tanta gente nas ruas
indo
parando
voltando,
correndo,
seguindo.

Há tanta gente
atravessando,
cruzando,
caminhando.

Há tanta gente
subindo e descendo
escadas

subindo e descendo
elevadores

Tanta gente nos carros
ou apertadas nos ônibus

Tanta gente,
com tantas histórias
e tantas coisas a dizer:

gente nos bares, nas noites,
nas praias, nas salas, nos shoppings
nas calçadas.

Há tanta gente passando.

Por que o meu olhar
parou em você
e ficou?

sexta-feira, 7 de março de 2014

A verdade sobre o meu canto


Passarinho,
eu fiz um ninho
bem na beira da janela

Passarinho,
eu trancei os galhos

Passarinho,
eu enfeitei de flores

Passarinho,
eu trouxe comida e água

Mas, passarinho,
não pouse não
porque meu assobio é egoísta
e no fundo eu desconfio
que te amo
porque você voa.

v


domingo, 23 de fevereiro de 2014

Historinha de meu coração



Todos os dias, muitos passarinhos vinham cantar à minha janela. Pássaros verdes, amarelos, vermelhos, azuis. Mas foi o passarinho da asa quebrada que eu escolhi para ser meu passarinho. Meu passarinho tinha um canto triste – e por isso eu o amava tanto. Meu passarinho, com sua asa quebrada, voava baixinho... Ele não sofria por isso. Mas eu sofria muito. E se meu passarinho tentasse voar alto, caísse e morresse? Passei meus dias tentando consertar aquela asa. Eu  só queria que eu e meu passarinho pudéssemos voar alto, incrivelmente alto. Tentei de tudo. Até que contratei o melhor veterinário e contei de meu passarinho. O veterinário me disse que se algum dia eu explicasse a meu passarinho que ele não podia voar alto, ele pararia de cantar. E se ele parasse de cantar, ele morreria. Fiquei dilacerada. Então era isso, eu e meu passarinho nunca voaríamos alto. Mas nem assim eu desisti de salvá-lo. Continuei tentando soluções. Eu acreditava que, de alguma maneira, com muito esforço, eu e meu passarinho finalmente voaríamos juntos. Acontece que, certo dia, ele me convidou para as alturas e não havia o que fazer: ou ele voava alto e morria ou ele não voava, parava de cantar, e morria. E foi o que aconteceu. Meu passarinho tentou voar, caiu e morreu. Agora, quando os pássaros coloridos vêm cantar à minha janela, eu choro, choro, choro. Não por saudades de meu passarinho, mas porque esses pássaros que aí fora cantam não têm a asa quebrada para que eu possa tentar salvá-los. 

v

*Por 14 de Janeiro