sábado, 6 de dezembro de 2014

Poema de uma só folha (ou Poema para lhe consolar de um dia ruim)

Este é um poema
de uma só folha
para que, dobrado, caiba
em seu bolso
ou
para que torcido uma vez mais
habite pequeno em sua carteira.

É um poema para lhe acompanhar
aonde eu não puder alcançar
para ecoar
quando eu não puder segurar
para suportar
enquanto eu não puder insistir.

É um poema
para lhe consolar de um dia ruim
quando, ao fim dele,
eu não puder estar.

É um poema
para me acalmar
quando, por aí, você tiver fome
e eu não puder lhe alimentar.

É um poema para lhe afagar
quando algum fantasma lhe assustar
e eu não puder lhe proteger.

É um poema para você não esquecer
do que eu não puder lhe lembrar.

É um poema
para me desculpar
quando, em um dia ruim, eu, mulher pequena,
não puder lhe oferecer mais nada
além do meu pequeno amar.



terça-feira, 16 de setembro de 2014

Luto

 Era noite e
eu gritei.

No dia seguinte, 
não fez sol e
eu agradeci: 
o universo se compadeceu. 

Dessa época, 
só me lembro, 
não sei porquê, 
dos cachorros andando 
pela casa. 

O resto é nuvem.

Mais lições para se tornar um poeta

I.

Tenha sempre um lápis à mão...
Para brincar de jogo da velha
enquanto espera a fila do banco.

II.

Nunca revele
com quantos pontos se faz
uma reticência.

(Comece adivinhando por que não são três.)

III.

Todos os dias,
dê de mamar ao silêncio.

IV.

Desabafe sua dor mais profunda a alguém
que não entende sua língua.

V.

Pegue o livro de palavras eruditas
e ponha
para enfeitar a mesa da sala.


VI.

Um dia na semana
pratique sexo moral
sem abrir a boca.

VII.

Apenas explique um poema
com outro poema.

VIII.

Ame uma formiga.

IX.

Ensine dois princípios
a uma parede,
sob pena de deixá-la de recuperação.

X.

Pelo menos uma vez por mês,
experimente o que é morrer.

sábado, 13 de setembro de 2014

Lições para se tornar um poeta

Acorde bem cedo
Escolha um jardim
e observe
como nasce uma borboleta.

Observe a lagarta
o casulo
e as asas.

(Reflita dois minutos
sobre a contradição entre a morte
da planta
e a vida do bicho)

Surpreenda-se com a cor do animal
que era preto e agora
voa.

Depois seja rejeitado
duas vezes
pela mesma pessoa.

Quando já não suportar sua dor,
pegue um papel
e escreva
qualquer coisa
sobre transformação.

Se você
deixou de lado a borboleta,
está quase pronto
para se tornar um poeta.

E a lição de observar o bicho?
Passar o tempo...

v

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Crime passional

Assassinar-me-ei nos próximos versos
cravando uma mesóclise em meu peito

Ao olharem meu corpo
dirão:
foi suícido.
Perfuração verbal por um pronome oblíquo.

Porém, nunca saberão
que o pronome era outro.
O verbo é o mesmo,
quem mudava era o morto.

Uma curta escapulida
tornou meu ato reflexivo.
E se já está no papel,
também já está dito.

Em nada me custa morrer
Mas se o futuro pudesse prever...
O que já se escreveu,
assim teria escrito:

Assassinar-me-eu.

v

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Poema naturalmente incompleto

Pus a cadeira na varanda
pra ver o dia morrer...

Você vinha devagar pela estrada
e eu lhe acompanhei
com os olhos
até você sumir.

Mais mistérios do coração de um sabiá

Passarinho tem saudade.
Quando longe, tem vontade;
quando perto, sente medo
de que pousando em meu peito
fique preso numa gaiola.

v

Ouça este poema recitado: