terça-feira, 19 de maio de 2009

A uma Estrela Suicida


Sofro de uma enfermidade virulenta que me abarcou a alma. Não há cura. Nem os melhores médicos souberam tratar espécie tão rara. É-me incerta a idade em que padeci, talvez já desde nascida carregue na mente essa sina de enferma. Não é do corpo que sofro. Não são em tumores que se manifestam as minhas chagas. Eu padeço do espírito. Não há vacina para a vida, não há remédios que previnam as dores do viver. Mas não, não são tristes, são alegres os meus versos! É com alegria que hoje choro. Sofrer é condição da existência. E como é delicioso poder dizer aos prantos: eu existo. Ah, eu existo...! Sei que em momentos me desesperei, pedi clemência, recorri aos céus para que tirassem do meu peito essa dor inextinguível. Mostraram-me a mais linda melodia, mostraram-me o céu, o mar, as flores, as cores. Recitaram-me a mais lírica poesia. Mas não há cura. Não há como tirar de mim esse melancólico tom cinzento. Levo nos ombros as agruras de algo maior, profundo e absolutamente inexplicável. Foi preciso me entregar ao sofrimento por inteira, para entender que ele faz parte de mim. Sofri, chorei, cai em qualquer lugar do chão e lá permaneci durante horas. Soluçando, encolhida como uma criança, uma órfã que não tem a quem pedir colo, que se vê no mundo sem algum lugar para ir ou para voltar. Chorei, chorei, chorei... E adormeci sem entender por que ou o que dói tanto. Acordei, reparei-me no espelho e me vi igualzinha ao que sempre fui. Exceto meus olhos. Eles tinham qualquer coisa de velhos, de sábios. Então entendi: estava, finalmente, em comunhão com a dor. Não há cura. Ela faz parte de mim. Hoje colho flores, sinto as melodias, festejo o mar, aprecio os versos. E naqueles dias de inverno demoro-me fitando o céu, distinguindo no cinza os mais tênues tons da aurora. Porque os meus olhos... Os meus olhos ainda têm qualquer coisa de velhos.
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segunda-feira, 23 de março de 2009

Poema adiado para amanhã

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Filha do Verso

Bendito seja o Verso
que me fez fruto de seu ventre.

Bendito seja Aquele
que me colheu ainda verde,
me alimentou com verbos
e me aliciou com rimas.

Bendito seja o meu Pai
que em minha parca mesa
jamais deixou faltar
a Palavra Nossa de cada dia.

Bendito seja
O que jamais desistiu de mim
mesmo quando eu, dadaísticamente,
desisti Dele.

Bendito seja
O que pacientemente entendeu meu hiato
e religiosamente me apresentou os ditongos,
tritongos, quadratongos, pentatongos!

Bendito seja
O que com as pedras no meio do caminho
me construiu inteira e depois disse:
agora desconstrói.

Bendito seja O que antes havia me ensinado
como é possível fazer da palavra concreto
abstrato.

Bendito seja O que me revelou a liberdade
e a possibilidade de ser
eu
lírico.

Você lírico, qualquer um lírico.

Bendito seja
O que com um lápis
me deu o mundo.

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terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Um café, por favor

Sem açúcar, sem afeto. Um café preto, amargo, que tire o travo da noite. Um café pesado para ser tomado num quarto de janelas cerradas: as cortinas fechadas, o ar abafado, as roupas no chão, a chave no móvel, um copo vazio e eu: de cabelos bagunçados e rosto borrado.

Eu quase em farrapos, deitada, jogada na cama. Eu que na cama mesmo escrevo, com as mãos trêmulas, a noite de minha coroação. A noite em que os olhos se voltaram para mim, em que os pedestres abriram passagem enquanto alguns reles me carregavam no braço. A noite de minha embriaguez.

E é para voce que eu dedico estas letras tortas. Porque foi por você que eu bebi aquele vinho doce, foi por todos os seus sorrisos, todos os nossos risos, todas as nossas noites. Foi pela saudade que eu intercalei uma taça de água com uma de álcool.

Foi por você que eu pedi uma cerveja. E foi por ter me abandonado tantas vezes que virei aqueles copos. Foi pela raiva, pela solidão. Pelas nossas brigas, pelos nossos gritos. Pela minha dor.

O licor foi pelo seu pulso fraco. Foi por você sempre aparecer no final do dia fazendo promessas bonitas. A terceira dose foi por eu sempre ceder.

Com a cachaça eu bebi as outras mulheres. Bebi o ciúmes. Bebi meu descontrole, minha dependência. Bebi a goles rápidos minha fragilidade.

O último copo - eu já nem lembro de quê - foi pelas ilusões. Por todas as noites que eu gastei pensando e acreditando em soluções para nós dois.

Fiquei em pé, decidida a ir embora, dei dois passos e -

vomitei.

Vomitei você no meio de pudores e pessoas comedidas. Vomitei seu amor com gosto de bile, seu amor amargo e indigesto.

Me levaram para fora e me deixaram em companhia de esgotos. Eu, ali, caída no asfalto com o cabelo melado da gosma amarela que me escorria da boca, os olhos pretos manchados, uma barata subindo pela perna e um mau-cheiro terrível.

Eu, Rainha da Sujos. Eu, Rainha dos Ratos, dos Rotos. Dos Rejeitados. Rainha do Erro, Rainha dos Fracos, Rainha dos Loucos. Mas: Eu, Rainha de Mim Mesma.

Eu, rindo, enquanto os olhares de asco se acumulavam em volta. Eu, gritando os meus títulos nobres, gritando minha liberdade: você ficaria ali no vômito, misturado ao almoço do dia
e atraindo baratas.

As pessoas, acostumadas a pintar o mundo de rosa, taparam os olhos das crianças e procuraram não respirar aquele odor desagradável. E porque eu causava repulsa, me carregaram pra casa, enquanto gritava:

Nojo? Essa imundície é o amor!

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sábado, 25 de outubro de 2008

Palavras cinza

Acho que já passam das três da manhã. Não consigo dormir. Alguma coisa aqui dentro... Uma dor, uma angústia – sei lá.

Lembrei de quando eu era pequena, reclamando do dente e você me distraía com o balançar de seus braços. Depois, quando o problema era o escuro, você se apertava para eu deitar ao seu lado. Então, quando a cama já não mais cabia e eu, chorando lhe trazia os primeiros pedaços do meu coração, você sentava comigo e alisando meus cabelos me explicava o amor.

Hoje, mãe, não tem nome o meu sofrimento. É um cansaço inexpurgável: tenho rugas na alma. Você quase não imagina quanto agora me custa subir os músculos da face e – sorrir. Eu, eu já não choro quando vejo o mar, já não escuto Vinícius, não canto, não danço.

Onde está aquela sua pequena que entrava correndo na sala, repleta de cores? Aquela menina de caracóis bagunçados, pedindo em seus olhos: vida, por favor. Para onde foi a felicidade gratuita das crianças? Aquela distração com tão pouco, meu Deus. Aquele riso gostoso como se a solução para o mundo fosse, inesperadamente, ganhar um pirulito azul.

Diante do cinza eu mal tenho ânimo para me indignar com a mentira na qual todos se encerram. Você mesma insistia em dizer que seus olhos fundos eram frutos da dureza do dia. E assim cada um segue os seus anos arranjando um motivo qualquer para esconder a verdade que parecerá nos ruir. Pois para mim pouco importa se agora o que eu digo destruirá as ilusões que as pessoas proletariamente andam a construir.

Não é a dureza do dia, não são as contas a pagar, não é o amor mal correspondido, não é a gripe que teima em ficar. Não é nada disso o motivo para os olhos fundos do mundo. Eis, com palavras simples, a verdade que tanto insistem em mascarar: viver dói.

A trilha sonora que embala minhas madrugadas insones é a mesma trilha que escolho para essas palavras opacas. É aquele choro vermelho estridente angustiante de quem acaba de rasgar o útero. O choro que confirma a vida. O choro que é a nossa primeira fala, é o nosso primeiro verbo, é a nossa primeira reação diante de tudo. O choro que a maternidade deforma em alegria, mas que é a mais pura manifestação da Dor.

A vida é esse choro que nunca cessa. E no início culpamos o dente, depois culpamos o escuro, depois culpamos o amor. Para finalmente, descobrir que não há o que culpar: viver dói.

Acho que já passam das quatro da manhã. E apesar das palavras cinza, ainda tenho a esperança de abrir a janela e encontrar um sol amarelo colorindo o céu. Então voltar para cama cansada, deitar já quase adormecendo e ouvir a voz dos seus olhos fundos: dorme, pequena, dorme que a dor passa...

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terça-feira, 29 de julho de 2008

Texto para viveres mais

Isto é uma confissão: eu te quero, admito. Mil vezes admito. Assim mesmo, explicitamente, porque hoje não sou poeta. Hoje sou amante.

Pois que se dane a originalidade! O amor é um eterno clichê. E hoje, meu bem, hoje eu sou amante: minha escrita é inteiramente tua: palavras com cheiro de jasmim para te convenver a me amar.

Sei que não me queres teu como te quero minha. Mas nem ao menos me destes a chance de te provar que podes me querer. Sim, tu podes me querer.

Dê-me apenas algumas horas. Eu te mostrarei as delícias do amor. Deixe-me recitar um monólogo ao pé do teu ouvido e entenderás a vida em um arrepio. Deixe-me roubar para ti versos de canções. Deixe eu te convencer de que a lua brilha para nós dois.

Adormece uma só vez em meus braços - lentamente em meus braços - enquanto eu teorizo loucuras. Acorda uma só vez em meus braços - lentamente em meus braços - enquanto te fito em silêncio. Então me fita também em silêncio: o diálogo entre olhares é o segredo do amor.

Permite-me entrelaçar minhas mãos nas tuas, minhas pernas nas tuas, meu corpo no teu. Permite-se sentir o desejo irrefreável de se queimar no calor da carne.

Sê minha. Inteiramente minha. Estou pronto para amar até mesmo os teus defeitos e teus erros, pois eles fazem parte de ti. Sê meu riso, minha lágrima, minha rima. Sê minha sede, minha fome, meu alimento.

Escolhe ser minha Mona Lisa para que eu jamais decifre teu sorriso. Isso é amar. Viver os dias não como se fossem o último, mas como se fossem eternamente o primeiro. Aquele dia que carrega a paixão, que carrega o novo, que carrega a ansiedade, que carrega a descoberta. Que carrega o mistério.

Encosta tua cabeça em meu ombro, fecha teus olhos e ouve aquele Poeminha Amoroso que sei de cor. Ouve, enquanto recito baixinho: "eu te amo, perdoa-me, eu te amo".

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quinta-feira, 5 de junho de 2008

Crime passional

Assassinar-me-ei nos próximos versos
cravando uma mesóclise em meu peito

Ao olharem meu corpo
dirão:
foi suícido.
Perfuração verbal por um pronome oblíquo.

Porém, nunca saberão
que o pronome era outro.
O verbo é o mesmo,
quem mudava era o morto.

Uma curta escapulida
tornou meu ato reflexivo.
E se já está no papel,
também já está dito.

Em nada me custa morrer
Mas se o futuro pudesse prever...
O que já se escreveu,
assim teria escrito:

Assassinar-me-eu.

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