terça-feira, 13 de novembro de 2007
Quero todos os amores possíveis
(ou Poema clichê para as mentes híbridas)
Quero casar o cavalo marinho e a lua
O passarinho e a flor
Julio César e a Cinderela
Quero casar o universo e o finito
O peixe-boi e a vaca
João Ninguém e Maria-Vai-Com-As-Outras
Quero casar o vilão e a mocinha
O elefante e a formiga
O presidente e a embaixatriz
Quero que o urubu entre de branco na igreja
E que a pomba branca seja sua noiva
(quero que ela entre de fraque preto)
Quero que o padre depois se case com a freira
E que a lua-de-mel seja em Havana
Quero parnasianos com modernistas
Norte-Americanos com Iraquianos
O pólo positivo com outro pólo positivo
Quero o casar com a adição
O óleo e a água
O céu e o mar
Quero que Romeu e Julieta tenham um casal de gêmeos
Quero que a leoa seja o sétimo casamento do tigre-de-bengala
Por fim, quero casar o homem com Elemesmo
Quero um mundo fértil.
v
segunda-feira, 5 de novembro de 2007
Inverno tipo mediterrâneo
(a rua alaga)
A cidade se declara daltônica:
eu já nem lembro do azul.
Chove ritmadamente.
Chove baixinho,
chove triste...
Mas a chuva não é um choro,
é um samba de Cartola!
E chora
E samba
E chove
Então –
então aquela convulsão
que me tirou as forças,
aquela convulsão...
Não era frio?
e nem era falta de glicose no sangue?
Era o meu corpo
ensaiando os passos de
uma bela gafieira?
Pinga o pandeiro
Chove melancolia
o vento geme quando a morena requebra molhada
Canta o azedo da vida
Chora o mar
Sinto-me t-r-e-m-e-r
Será hipotermia?
O medo do cinza?
O amor pelo samba?
Sou dançarina
ou convulsa?
Preciso urgentemente
da mais doce sobremesa.
v
terça-feira, 9 de outubro de 2007
Gramática comparada
E então eu volto às palavras.
(Desisti de desistir)
Porém, não volto tão simplesmente.
Venho com entonação de protesto
- ou de apelo, sei lá:
Quero uma nova língua!
uma nova gramática,
uma nova metáfora.
Sou um plágio de mim mesma.
E não quero uma língua
já existente.
Quero ser a criatriz!
...
Tudo bem, confesso,
talvez eu minta.
É tudo uma farsa.
Às vezes me faço papel,
mas a palavra nem sempre
é o que sinto.
Ai, esse lirismo piegas...
A verdade é que não quero
uma nova língua,
não quero uma nova metáfora.
Posso fazer de um elefante
uma flor.
Eu quero é uma desculpa
para não admitir
que o problema está em mim.
Mim,
meu,
minha,
eu.
Primeira pessoa do singular
e ninguém mais.
Se eu criasse o novo,
nada mudaria.
Novas regras
não seriam a possibilidade
de um pentatongo
mas, sim,
de um hiato com cinco vogais.
Se me dessem novas letras,
eu formaria novas palavras...
Para escrever exatamente o antigo.
O erro sou eu.