segunda-feira, 23 de março de 2009

Poema adiado para amanhã

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Cru

                                     mas nem tanto


É preciso dizer adeus
sem chorar.
É preciso seguir
sem duvidar.
É preciso abandonar
o que fica.
Não temer
o que ainda virá.

É preciso partir.

Mas tudo
o que me é possível
é permanecer
chorando.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Filha do Verso

Bendito seja o Verso
que me fez fruto de seu ventre.

Bendito seja Aquele
que me colheu ainda verde,
me alimentou com verbos
e me aliciou com rimas.

Bendito seja o meu Pai
que em minha parca mesa
jamais deixou faltar
a Palavra Nossa de cada dia.

Bendito seja
O que jamais desistiu de mim
mesmo quando eu, dadaísticamente,
desisti Dele.

Bendito seja
O que pacientemente entendeu meu hiato
e religiosamente me apresentou os ditongos,
tritongos, quadratongos, pentatongos!

Bendito seja
O que com as pedras no meio do caminho
me construiu inteira e depois disse:
agora desconstrói.

Bendito seja O que antes havia me ensinado
como é possível fazer da palavra concreto
abstrato.

Bendito seja O que me revelou a liberdade
e a possibilidade de ser
eu
lírico.

Você lírico, qualquer um lírico.

Bendito seja
O que com um lápis
me deu o mundo.

v

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Um café, por favor

Sem açúcar, sem afeto. Um café preto, amargo, que tire o travo da noite. Um café pesado para ser tomado num quarto de janelas cerradas: as cortinas fechadas, o ar abafado, as roupas no chão, a chave no móvel, um copo vazio e eu: de cabelos bagunçados e rosto borrado.

Eu quase em farrapos, deitada, jogada na cama. Eu que na cama mesmo escrevo, com as mãos trêmulas, a noite de minha coroação. A noite em que os olhos se voltaram para mim, em que os pedestres abriram passagem enquanto alguns reles me carregavam no braço. A noite de minha embriaguez.

E é para voce que eu dedico estas letras tortas. Porque foi por você que eu bebi aquele vinho doce, foi por todos os seus sorrisos, todos os nossos risos, todas as nossas noites. Foi pela saudade que eu intercalei uma taça de água com uma de álcool.

Foi por você que eu pedi uma cerveja. E foi por ter me abandonado tantas vezes que virei aqueles copos. Foi pela raiva, pela solidão. Pelas nossas brigas, pelos nossos gritos. Pela minha dor.

O licor foi pelo seu pulso fraco. Foi por você sempre aparecer no final do dia fazendo promessas bonitas. A terceira dose foi por eu sempre ceder.

Com a cachaça eu bebi as outras mulheres. Bebi o ciúmes. Bebi meu descontrole, minha dependência. Bebi a goles rápidos minha fragilidade.

O último copo - eu já nem lembro de quê - foi pelas ilusões. Por todas as noites que eu gastei pensando e acreditando em soluções para nós dois.

Fiquei em pé, decidida a ir embora, dei dois passos e -

vomitei.

Vomitei você no meio de pudores e pessoas comedidas. Vomitei seu amor com gosto de bile, seu amor amargo e indigesto.

Me levaram para fora e me deixaram em companhia de esgotos. Eu, ali, caída no asfalto com o cabelo melado da gosma amarela que me escorria da boca, os olhos pretos manchados, uma barata subindo pela perna e um mau-cheiro terrível.

Eu, Rainha da Sujos. Eu, Rainha dos Ratos, dos Rotos. Dos Rejeitados. Rainha do Erro, Rainha dos Fracos, Rainha dos Loucos. Mas: Eu, Rainha de Mim Mesma.

Eu, rindo, enquanto os olhares de asco se acumulavam em volta. Eu, gritando os meus títulos nobres, gritando minha liberdade: você ficaria ali no vômito, misturado ao almoço do dia
e atraindo baratas.

As pessoas, acostumadas a pintar o mundo de rosa, taparam os olhos das crianças e procuraram não respirar aquele odor desagradável. E porque eu causava repulsa, me carregaram pra casa, enquanto gritava:

Nojo? Essa imundície é o amor!

v

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Até que o poema acabe

 Estaremos juntos

em juras de amor
corpos entrelaçados
beijos intermináveis.
Juntos
no possível e
no impossível
e na sede insaciável
de sermos
a dois.
Juntos
no desejo incontrolável,
na troca de olhares,
na trama profunda.

Estaremos juntos,
até que o poema acabe...



Acabou

sábado, 25 de outubro de 2008

Palavras cinza

Acho que já passam das três da manhã. Não consigo dormir. Alguma coisa aqui dentro... Uma dor, uma angústia – sei lá.

Lembrei de quando eu era pequena, reclamando do dente e você me distraía com o balançar de seus braços. Depois, quando o problema era o escuro, você se apertava para eu deitar ao seu lado. Então, quando a cama já não mais cabia e eu, chorando lhe trazia os primeiros pedaços do meu coração, você sentava comigo e alisando meus cabelos me explicava o amor.

Hoje, mãe, não tem nome o meu sofrimento. É um cansaço inexpurgável: tenho rugas na alma. Você quase não imagina quanto agora me custa subir os músculos da face e – sorrir. Eu, eu já não choro quando vejo o mar, já não escuto Vinícius, não canto, não danço.

Onde está aquela sua pequena que entrava correndo na sala, repleta de cores? Aquela menina de caracóis bagunçados, pedindo em seus olhos: vida, por favor. Para onde foi a felicidade gratuita das crianças? Aquela distração com tão pouco, meu Deus. Aquele riso gostoso como se a solução para o mundo fosse, inesperadamente, ganhar um pirulito azul.

Diante do cinza eu mal tenho ânimo para me indignar com a mentira na qual todos se encerram. Você mesma insistia em dizer que seus olhos fundos eram frutos da dureza do dia. E assim cada um segue os seus anos arranjando um motivo qualquer para esconder a verdade que parecerá nos ruir. Pois para mim pouco importa se agora o que eu digo destruirá as ilusões que as pessoas proletariamente andam a construir.

Não é a dureza do dia, não são as contas a pagar, não é o amor mal correspondido, não é a gripe que teima em ficar. Não é nada disso o motivo para os olhos fundos do mundo. Eis, com palavras simples, a verdade que tanto insistem em mascarar: viver dói.

A trilha sonora que embala minhas madrugadas insones é a mesma trilha que escolho para essas palavras opacas. É aquele choro vermelho estridente angustiante de quem acaba de rasgar o útero. O choro que confirma a vida. O choro que é a nossa primeira fala, é o nosso primeiro verbo, é a nossa primeira reação diante de tudo. O choro que a maternidade deforma em alegria, mas que é a mais pura manifestação da Dor.

A vida é esse choro que nunca cessa. E no início culpamos o dente, depois culpamos o escuro, depois culpamos o amor. Para finalmente, descobrir que não há o que culpar: viver dói.

Acho que já passam das quatro da manhã. E apesar das palavras cinza, ainda tenho a esperança de abrir a janela e encontrar um sol amarelo colorindo o céu. Então voltar para cama cansada, deitar já quase adormecendo e ouvir a voz dos seus olhos fundos: dorme, pequena, dorme que a dor passa...

v

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Ruga

 O sol encrespa

A seca encrosta
O solo encrua

A mãe murcha tem treze guris
e sua barriga murcha carrega
mais um.

O pai grosso tem três gados
e sua mão calejada enterra
mais um.

A cama é crespa
O amor é crosta
A vida é crua

Tudo é áspero, árido
e morto.
O sertão é ruga.