quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Amor

Ganhei vinte rosas vermelhas
e uma branca.

Coloquei num vaso com água
mas elas foram murchando
murchando
murchando
...

E joguei-as todas no lixo.

v

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

O poema que eu não escrevi

“Vocês perdem coisas todos os dias. Algumas tão pequenas, que nem notam. Outras fazem tanta falta.”



Arlene Hermínia




Este é o primeiro dia dos pais que passo sem você. Nunca fomos de comemorar datas, mas hoje eu daria tudo por um almoço no Depan. Arroz chop suey, frango empanado, molho agridoce e meia porção de família feliz. Família feliz: quem diria que a nossa história viria cifrada – tão doloridamente – no nome de um prato da culinária chinesa? Não soubemos reparar que em todos aqueles domingos, brincando de forca enquanto a refeição ficava pronta, nós estávamos, ali, sendo uma porção inteira de família feliz. Muitas vezes (e, aliás, quase todas) com pequenos (ou grandes) desentendimentos. Mas isso não desfaz nosso conjunto, não desfaz nossa felicidade.


Não estou me deixando esquecer dos equívocos por causa da ausência, nem simplificando a complexidade das relações. Ao contrário, agora com mais maturidade, estou compreendendo que a luta, o esforço, o suor, o desencontro fazem parte do amor. Já é tempo de deixar cair esse ideal de sentimento sublime, que nos invade, e envergonha com pudores as histórias de cada lar. Tivemos, sim, nossas brigas, loucuras, infelicidades. Raivas, ódio, gritos, feridas. Mas quem nos fez acreditar que isso não faz parte do amar? Talvez se desde pequenos aprendêssemos que a dor pertence ao ser feliz, então talvez perdêssemos menos tempo tentando superar esses conflitos e soubéssemos aceitar honestamente a subjetividade do outro.


Afinal, é isso que é se relacionar, uma troca. E existe verbo mais lindo que trocar? Eu lhe dou e você também me dá. Permuta. Equivalência. Só não entendemos que, no fundo, a única coisa que podemos oferecer é a nossa própria história de vida. Como vou exigir que seja uma pessoa tranquila se sua criança precisou estar em alerta para sobreviver? Como vou exigir que me ofereça outra coisa senão o seu passado em forma de superação ou similitude? É preciso saber aceitar e desejar o que o outro pode dar. É preciso aprender a ser amado.


Sei que algumas dessas feridas ficam como manchas difíceis de tirar, mas isso é lá com Freud e as artimanhas do inconsciente... Aqui, meu compromisso é dizer que eu lhe perdoo, pai. Eu lhe perdoo e também peço perdão – por tudo que tentamos e não conseguimos ser. Estou lutando, me esforçando, suando para que o verdadeiro amor se instale entre nós. Sim, você está comigo, e estará sempre, ecoando em meus gestos e falas. Nada do que inauguramos em seus últimos meses termina com a matéria. Nada do que inauguramos em vida termina com a morte. Nada.


Por isso eu quero, aqui, lhe dizer que estou aprendendo a ser amada. Estou aprendendo a relembrar seu jeito contundente, grave, calado e me sentir amada. Estou entendendo que seu silêncio era amor inteiro, matéria bruta, era o que de mais profundo você podia oferecer. Desculpe-me, pai, eu é que era apenas uma menina e não soube alcançar. Eu não soube compreender que por trás da função de ser herói havia um ser humano, com angústias, vazios, mágoas, carências, humilhação, vergonha, desespero. Havia alguém que para sobreviver aprendeu que tudo isso deveria ser emudecido pela força da superação. Mas agora eu começo a entender que você abdicou de suas fragilidades por nós. Começo a entender que o seu significado de ser pai era segurança. Você abriu mão de seus desejos para que eu pudesse querer e das suas lágrimas para que eu pudesse chorar.


Às vezes eu caio num buraco imenso, me revolto, acho injusto. Deveria ter sido eu. Eu que falo pelos cotovelos; eu que de alguma maneira ainda tenho a literatura; eu que faria escândalo, gritaria com o mundo e com Deus; eu que mandaria pro inferno os princípios; eu que tive espaço para desejar e sofrer. Mas foi você, homem contido. Dói tanto, tanto imaginar sua luta em solidão... Será que você chegou a encarar diretamente a morte? Será que você experimentou as coisas com o medo e a dor de ser última vez? Será que você teve saudade do futuro que iria perder? Será que você imaginou o mundo sem você? Quem consola o desespero de um homem solitário?


Lembro-me daquela madrugada em que você se levantou, já enfrentando a doença, e me perguntou como se fazia um poema. Por que, meu Deus, eu não parei tudo naquele momento para lhe falar dos decassílabos? Por que eu não lhe expliquei a teoria dos versos? Dando-me o tema, você queria que eu escrevesse por você; e eu quis que você mesmo tentasse com o papel. Apenas lhe falei que poesia se fazia com a expressão dos sentimentos. Levantei-me e fui dormir, lhe deixando com o silêncio. Por quê? Por que eu não fiquei com você até o dia clarear? Por que eu não lhe expliquei as rimas? Pai, eu só queria que você tentasse, eu queria lhe ajudar.


Jamais perdoarei as instituições que construíram a literatura e a escrita como nobres, grandes e intocáveis. Eu sei que você teve receio de produzir versos tortos. Mas é um mito cruel esse de que é preciso talento ou técnica para desbravar o papel. Mentira: é preciso coragem, somente. Sofro por você e por todos aqueles que, inibidos pelo erro, não podem partilhar da companhia da palavra.


O que você teria escrito em seu último poema?


Em dias melhores, consigo sair do buraco e estar mais serena. Mesmo com memórias de sua dor, volto a acreditar na sabedoria do universo. Tudo tem um motivo para ser como é – e portanto eu me entrego às coisas como são. Então, consigo ver com gratidão nossos meses de luta. O imenso sofrimento do corpo nos acordou para a troca profunda. Nesses meses, pudemos ser o que a rotina comum havia desgastado: pai e filha. Redescobrimos o abraço, o toque, o diálogo. E aprendemos, todos, a acreditar na vida. Se naquela madrugada me levantei e fui dormir, é porque eu acreditava na cura. Imaginava que teríamos tempo para os poemas do mundo inteiro. Os médicos não avisaram que só nos restava um soneto.


Em dias melhores, vejo que não poderia ser diferente. Acreditar na vida foi a sua dignidade. Nada nem ninguém haveria de escolher por você: você, como sempre, estava no controle. Continuou a fazer suas escolhas, com coragem, força, lucidez. Continuou a comer o que lhe apetecia, sorrir, viajar. Você não abriu não de ser o homem que você quis ser. Um grande homem.


Curar-se não é superar a morte, é livrar-se das defesas para abrir o coração. E você, pai, fez de si um coração aberto. Me acalanta lembrar daquele sábado de sol. Você mostrou pulsão de vida para ir à praia, lavar a alma com água salgada, ser abraçado pelo sol. Na volta, olhando para o mar, você chorou. Essas lágrimas foram aquele poema que eu não escrevi. Essas lágrimas foram poesia escorrendo dos olhos. Pai, você chorou – e curado está aquele que chora diante do mar.


Muito, muito obrigada por tudo. Estaremos sempre juntos, você é o meu amuleto.


Te amo,


vivi


14 de agosto de 2011
Dia dos pais

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Parábola da Filha Pródiga

Peço desculpas se por tanto tempo estive ausente, se fiz minhas malas sem dizer para onde iria e se agora volto, os ombros caídos, esperando abrigo. Sinto em seu silêncio um ar de predição – e reconheço: perdi a batalha.

Você, Palavra, sempre foi e sempre será meu único lugar no mundo.

Não encontrei em cidade alguma as paisagens que você me oferece. Não encontrei nos bares a sua embriaguez, nem nos templos a sua sobriedade. Não encontrei nos amigos sua compreensão e, no amor, não encontrei sua plenitude. Não encontrei em nenhum homem o meu pai, em nenhuma mulher a minha mãe, não encontrei a minha casa: por isso escrevo.

Você, Palavra, é o meu desespero. Você é minha luta, é a minha busca.

Sei que fui insolente. Lhe abandonei, parti sem hesitar. Acreditei que, com vontade e paixão, eu haveria de conquistar o mundo. Acreditei na pureza dos meus ideais, acreditei na força de minha honestidade. Eu quis, verdadeiramente, acertar. Eu quis, profundamente, amar e ser amada. Eu quis entender, quis desvendar, solucionar, compreender. Eu quis me doar inteira. Fui vísceras e sangue.

Você, Palavra, é o meu corpo. Você é minha estupidez, é minha falta de ar.

Não tenho o que esconder, fracassei. Fracassei e para cada fracasso guardo uma cicatriz: sou um mapa de sofrimentos. Sou mulher-ferida, alma machucada, suspiro cansado. Em cada novo caminho, desejei com muita fé que tivesse chegado a minha hora de ser feliz, mas todas as ruas foram dar em sorrisos que não eram meus. Sim, eu comi com os porcos. Eu amei os porcos e até os porcos me rejeitaram.

Você, Palavra, é minha indignidade. Você é a minha privação, é meu desamparo.

Juntei o que encontrei de mim e estou de volta. Não é preciso que diga nada, apenas permita que eu fique. Permita que eu me instale com a minha dor, me aceite com essa minha tristeza. Não me abandone – e eu jamais lhe abandonarei outra vez. Jamais duvidarei que este seja o meu lugar. Eu nasci para você, nasci por você, nasci em você.

Você, Palavra, é útero em que me gesto. Você é meu sintoma, é minha loucura, é meu medo da morte. Você é minha solidão.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Mais sinceramente

Pour quelqu'un, avec une rose

Duas vezes comecei a escrever e duas vezes acabei em lindas metáforas. Eram lindas, é verdade, mas cumpro lhe falar (mais) sinceramente. Paciência quanto às metáforas, vão pro baú de rimas perdidas - quem sabe um dia as descubra outra vez. Paciência comigo também, sinto-me cansada e minha prosa anda lenta...

Mas se estivesse agora ao meu lado, não veria em minha face um desânimo sequer. Se você fosse às festas da noite, conversaríamos todas as vezes assuntos enérgicos, pontuados por boas risadas. Ou se caso amanhã quisesse ir à praia, lá me encontraria sem nenhum cansaço. Porque essa não sou eu. Essa que circula entre as pessoas e os lugares, essa que parece feliz enquanto caminha num corredor qualquer, essa das noites e das praias, essa que por aí vive. Essa não sou eu. Vive um heterônimo de mim, um personagem, talhado calmamente para que em seus gestos e falas se apresente como autor. Para que saia todas as manhãs às ruas, volte todas as tardes a casa, durma quando todos dormirem, fale o que todos falarem, para que siga a estrada que todos seguirem.

Porque eu, eu de verdade, eu, eu não sei viver. Eu só sei sonhar. E o mundo não permite sonhadores. Mas o que fazer se não me interessam essas coisas todas da vida? O que fazer se não me afetam as preocupações do homem comum? Enquanto me doem (e como me doem) o outono das árvores. É que o desfolhar diz muito mais da minha alma do que, por exemplo, a vida daquela pessoa que agora passa à calçada. Não tenho culpa, nasci Poeta. E ser Poeta não se trata de assumir por ofício a escrita, mas de uma forma de estar no mundo – sem estar nele de fato. Sei percorrer minhas sensações com incrível destreza, sei falar da alma com espantadora intimidade; mas não sei fazer, senão à custa de muito esforço, o que o homem vulgar faz simples e naturalmente.

Por isso tenho raiva, às vezes, dessa coisa chamada Destino que me pôs na alma a sina da palavra. Porque amar a palavra é ter a aguda sensação de ser sozinho no mundo. É buscar ansioso, ao seu redor, um olhar cúmplice que guarde ao fundo, sempre ao fundo, um sutil desespero: o desespero de existir e saber que se existe. Mas é também descobrir que a outra face dos desesperados é a solidão. É desconstruir sofregamente todas as nossas ilusões, todos os pudores românticos, tudo. É ver-se nu, cru, cheio de marcas. Feridas abertas, pus, excreções da alma. E amar-se assim, repugnante, livre de qualquer exterioridade, porque o externo nunca preenche o vazio de saber-se vivo.

Mas quem ousa libertar sua criança? Admitir que não passamos de vaidades do ego, que somos homens querendo ser Humanidade. Pois minha criança está solta a brincar por aí: sou fraca, pequena e sofro. Sou nada, quero ser tudo, mas continuo sendo nada. Amo, choro, erro e tenho medo. Sou ridícula. E que importa o que sou? Perdoe-me, Gramática, o verbo ser não se completa. Mas, ai de nós, escravos da Língua, eternamente a buscar predicativos frustrantes... Eu sou. Isso basta.

Ademais, tenho sono. Aquele cansaço não passa de um tédio profundo sobre todas as coisas. Sobre as gentes óbvias e suas vidas tranqüilas na inconsciência das sensações, sobre a cidade também óbvia em suas instalações e circuitos, e sobre minha própria obviedade, aqui, a tecer teorias inúteis com palavras provavelmente já ditas. A vida é um mistério indecifrável, Esfinge estúpida.

v

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Adeus, amor

Esta é uma carta de despedida. Se estiveres a me ler, é porque finalmente não estamos mais juntos. Não, não é com raiva que me despeço, é porque sei que a nossa história é uma eterna hora de partida. Estamos sempre a dar tchau enxugando as lágrimas e a voltar dizendo que o trem atrasou. Mas se estiveres a me ler é porque dessa vez ele saiu na hora marcada. Sei que pareço confusa – sempre me pedistes clareza – mas é tão difícil dizer adeus contigo ainda ao meu lado. Hoje mesmo estivemos juntos. Talvez estejamos amanhã, e depois, e depois. Talvez anos. Talvez nem mais um dia. Mas previno minhas frases com letras fortes para que resistam ao amarelado do tempo... (A verdade é que cada palavra me sai indecisa, pois não sei até que ponto desejam ser lidas). Tantas vezes encostei a cabeça no travesseiro e tracei nossos planos. Tantas vezes estive prestes a contar tudo isso, a ligar, a pedir que ficasses, a falar da saudade, a dizer eu te amo. Tantas vezes quis dizer vai embora, pedir que não voltes, mandar que me esqueças. Tantas vezes, amor, tantas vezes. E agora? O que será de nós quando tu leres esta carta? O que acontecerá às nossas lembranças? O que se dará aos nossos momentos? Para onde irá aquela intimidade sentida em um longo abraço silencioso? É difícil perder. É difícil ir embora, sobretudo quando se quer ficar. Nunca entenderei o que falta em nós dois, nunca entenderei porque pouco a pouco vou fazendo minhas malas e tu só fazes olhar calado. Vou tirando das gavetas os meus sonhos e dobrando, doloridamente, um a um; adiando em cada segundo a hora da partida. Mas é preciso partir. Meu destino é o futuro, sigo rumo ao inesperado. Sairei da cidade, vou achar o que perdi de mim. Então, amor, até quando o acaso decidir reencontrar nossos olhares. Caminharei lentamente, preenchida por uma paz sofrida, e marcando a estrada com minhas lágrimas. Seguirei a passos firmes, decidida a não olhar para trás, porque sei que não virás pedir para que eu fique. Sei que tudo que farás é somente olhar nostálgico para fotografias. Eis o fim desse nosso amor infindável. Quanto a ti, espero que um dia experimentes a delícia de seres livre para amar como eu te amei.
Adeus, adeus, amor
v

terça-feira, 19 de maio de 2009

A uma Estrela Suicida


Sofro de uma enfermidade virulenta que me abarcou a alma. Não há cura. Nem os melhores médicos souberam tratar espécie tão rara. É-me incerta a idade em que padeci, talvez já desde nascida carregue na mente essa sina de enferma. Não é do corpo que sofro. Não são em tumores que se manifestam as minhas chagas. Eu padeço do espírito. Não há vacina para a vida, não há remédios que previnam as dores do viver. Mas não, não são tristes, são alegres os meus versos! É com alegria que hoje choro. Sofrer é condição da existência. E como é delicioso poder dizer aos prantos: eu existo. Ah, eu existo...! Sei que em momentos me desesperei, pedi clemência, recorri aos céus para que tirassem do meu peito essa dor inextinguível. Mostraram-me a mais linda melodia, mostraram-me o céu, o mar, as flores, as cores. Recitaram-me a mais lírica poesia. Mas não há cura. Não há como tirar de mim esse melancólico tom cinzento. Levo nos ombros as agruras de algo maior, profundo e absolutamente inexplicável. Foi preciso me entregar ao sofrimento por inteira, para entender que ele faz parte de mim. Sofri, chorei, cai em qualquer lugar do chão e lá permaneci durante horas. Soluçando, encolhida como uma criança, uma órfã que não tem a quem pedir colo, que se vê no mundo sem algum lugar para ir ou para voltar. Chorei, chorei, chorei... E adormeci sem entender por que ou o que dói tanto. Acordei, reparei-me no espelho e me vi igualzinha ao que sempre fui. Exceto meus olhos. Eles tinham qualquer coisa de velhos, de sábios. Então entendi: estava, finalmente, em comunhão com a dor. Não há cura. Ela faz parte de mim. Hoje colho flores, sinto as melodias, festejo o mar, aprecio os versos. E naqueles dias de inverno demoro-me fitando o céu, distinguindo no cinza os mais tênues tons da aurora. Porque os meus olhos... Os meus olhos ainda têm qualquer coisa de velhos.
v

segunda-feira, 23 de março de 2009

Poema adiado para amanhã