domingo, 16 de março de 2014

Há tanta gente

 


Há tanta gente nas ruas
indo
parando
voltando,
correndo,
seguindo.

Há tanta gente
atravessando,
cruzando,
caminhando.

Há tanta gente
subindo e descendo
escadas

subindo e descendo
elevadores

Tanta gente nos carros
ou apertadas nos ônibus

Tanta gente,
com tantas histórias
e tantas coisas a dizer:

gente nos bares, nas noites,
nas praias, nas salas, nos shoppings
nas calçadas.

Há tanta gente passando.

Por que o meu olhar
parou em você
e ficou?

sexta-feira, 7 de março de 2014

A verdade sobre o meu canto


Passarinho,
eu fiz um ninho
bem na beira da janela

Passarinho,
eu trancei os galhos

Passarinho,
eu enfeitei de flores

Passarinho,
eu trouxe comida e água

Mas, passarinho,
não pouse não
porque meu assobio é egoísta
e no fundo eu desconfio
que te amo
porque você voa.

v


domingo, 23 de fevereiro de 2014

Historinha de meu coração



Todos os dias, muitos passarinhos vinham cantar à minha janela. Pássaros verdes, amarelos, vermelhos, azuis. Mas foi o passarinho da asa quebrada que eu escolhi para ser meu passarinho. Meu passarinho tinha um canto triste – e por isso eu o amava tanto. Meu passarinho, com sua asa quebrada, voava baixinho... Ele não sofria por isso. Mas eu sofria muito. E se meu passarinho tentasse voar alto, caísse e morresse? Passei meus dias tentando consertar aquela asa. Eu  só queria que eu e meu passarinho pudéssemos voar alto, incrivelmente alto. Tentei de tudo. Até que contratei o melhor veterinário e contei de meu passarinho. O veterinário me disse que se algum dia eu explicasse a meu passarinho que ele não podia voar alto, ele pararia de cantar. E se ele parasse de cantar, ele morreria. Fiquei dilacerada. Então era isso, eu e meu passarinho nunca voaríamos alto. Mas nem assim eu desisti de salvá-lo. Continuei tentando soluções. Eu acreditava que, de alguma maneira, com muito esforço, eu e meu passarinho finalmente voaríamos juntos. Acontece que, certo dia, ele me convidou para as alturas e não havia o que fazer: ou ele voava alto e morria ou ele não voava, parava de cantar, e morria. E foi o que aconteceu. Meu passarinho tentou voar, caiu e morreu. Agora, quando os pássaros coloridos vêm cantar à minha janela, eu choro, choro, choro. Não por saudades de meu passarinho, mas porque esses pássaros que aí fora cantam não têm a asa quebrada para que eu possa tentar salvá-los. 

v

*Por 14 de Janeiro

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Só por hoje

Eu sei que é uma questão
de matemática:
eu caibo em seus braços.
Seu abraço
tem a minha medida.

Mas só por hoje, amor, deixe
essa matemática de lado e 
descanse seus metros
em meu pequeno colo.

Só por hoje, amor, deixe
que eu lhe conduzo
Deixe que eu lhe carrego
Deixe que eu lhe consolo.

Só por hoje, amor, chore
que eu enxugo
Caia, que eu seguro
Peça, que eu resolvo

Eu resolvo seu mundo
num cafuné devagar
E desfaço suas guerras
com um beijo seguro.

Apenas esta noite, amor,
me entregue seus medos
Se deite assim frágil e 
adormeça suave
Enquanto eu rezo seu sono.

Só por hoje, amor:
caiba inteiro em meu colo... 
Só por hoje.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Imenso amor desconhecido

 Lhe esperei tanto, amor

Lhe esperei na porta do cinema
Lhe esperei num dia de chuva...

Guardei uma canção de Chico
para entregar quando você chegasse.

Procurei em tantos olhares
os seus olhos;
confundi tantas palmas
com as das suas mãos.

Construí um lugar na cama,
planejei um recital na varanda,
reservei espaço no criado-mudo 
para a nossa foto na praia.

Abasteci a geladeira
com sua cerveja favorita
Passei na padaria e comprei
aquele chocolate para a sobremesa.

Organizei viagens pelo nordeste e escolhi 
os sambas pra gente cantar na estrada.
Lembrei do filtro solar pra você esquecer 
de passar, e à noite eu lhe mimar entre lençóis
de pousadas baratas...

Arrumei e encostei as nossas malas na parede da sala,
e  enquanto lhe esperava, adormeci
no sofá, com a maquiagem no rosto e
sem tirar os sapatos.

Entre sonhos e o barulho da tv,
acordei e, olhando pro relógio, pensei em lhe dizer
que desta vez era imperdoável
atrasar.

Mas quando procurei por você
percebi
que eu não tinha um nome
para lhe chamar.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Retrato de uma alma abandonada



Eu? Eu entardeci muito cedo. Mal despontara a aurora de minha criança e já era tempo de recolher-se a casa... Junto ao sol, também se pôs minha leveza e credulidade pueril, restando em mim apenas a terrível melancolia do lusco-fusco. É por isso eu ainda nem completara a décima primavera, mas então padecia com a tristeza que abate a cidade no limbo dos astros - quando já findou o dia, mas a noite ainda não veio.
Nessas horas busquei ansiosa um olhar cúmplice que guardasse ao fundo, sempre ao fundo, um sutil desespero: o desespero de existir e saber que se existe. Mas as crianças são por demais distraídas e os adultos fugiam de minha pupila como quem apressa o passo para ignorar o pedinte. Tudo que desejava não era nada além de um abraço apertado, um longo abraço, que num suspiro quente sanasse o meu vazio. Enfim eu pude descobrir que a outra face do desespero é a solidão: e restei sozinha, mendiga da alma...


v

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Eu, João e Maria

Tenho rabiscos espalhados pelo
corpo
pela casa 
pela estrada.

Numa espécie de João e Maria,
abandonei versos 
pelo caminho
para não me perder.

Deixei  por aí
pedaços de poesia
para não me esquecer
de quem eu sou,
para me lembrar
pra onde eu vou 

para saber por onde voltar.

Deixei rimas como pistas
tatuadas nas paredes,
porque caso eu enlouqueça
algo precisa me salvar de
estar à deriva
em meu próprio labirinto.

Me preveni espalhando palavras
pelas esquinas
para que quando eu envelheça
esqueça de nomes e datas
mas que eu não morra enquanto
estiver viva.

Fiz um estoque de estrofes,
melodia engarrafada,
suprimento
para a grande guerra fria
que inverna
em minha alma.

Líricos vestígios
que me recordem
por onde eu passe:
se tudo mais falhar,
o poema é um abrigo.

v