Alguns textos de Caio
Algumas canções de Chico
Algumas versões de Bethânia
e uns versos de Vinícius.
Os que falem sobre o impossível
os que digam da tristeza
e um apenas
sobre o medo
do amor.
Todos
embalados e
deixados na porta de sua casa, pois
parto em viagem
e, na véspera da partida,
já não sei
escrever.
O que eu haveria de dizer
pra você
que me olhou
com olhos de amar
e fugiu?
v
terça-feira, 21 de agosto de 2012
Bilhetinho pregado na porta da geladeira
Precisei ir trabalhar, mas deixei
poemas
espalhados pela casa:
um em cima da estante,
outro na gaveta do armário
e dois guardados na dispensa.
Estendi uns decassílabos
no varal
E enrolei versos livres
em seu lençol.
Ah! Não esqueça da rima que ficou
cozinhando na panela:
é pro almoço.
E caso eu não chegue até
às quatro,
tem um soneto (de amor)
escondido
embaixo do tapete.
v
poemas
espalhados pela casa:
um em cima da estante,
outro na gaveta do armário
e dois guardados na dispensa.
Estendi uns decassílabos
no varal
E enrolei versos livres
em seu lençol.
Ah! Não esqueça da rima que ficou
cozinhando na panela:
é pro almoço.
E caso eu não chegue até
às quatro,
tem um soneto (de amor)
escondido
embaixo do tapete.
v
quinta-feira, 9 de agosto de 2012
Dentro de mim
Há um armário
fechado.
Dentro do armário,
uma gaveta
trancada a chaves.
Dentro da gaveta,
uma caixa
bem lacrada.
Dentro da caixa,
enrolada em papel manteiga,
eu guardo uma dor
profunda
e dilacerante.
(A senha para abrir
o cadeado é:
p_o_e_s_i_a)
fechado.
Dentro do armário,
uma gaveta
trancada a chaves.
Dentro da gaveta,
uma caixa
bem lacrada.
Dentro da caixa,
enrolada em papel manteiga,
eu guardo uma dor
profunda
e dilacerante.
(A senha para abrir
o cadeado é:
p_o_e_s_i_a)
domingo, 3 de junho de 2012
Há um leitor em cada
esquina
À espreita.
É preciso estar atento.
Rapidamente
escondo o poema
dentro da bolsa
e aperto-a contra o corpo.
Observo.
É preciso ter cuidado.
Há um leitor em cada
esquina
À espera.
Sorrateiramente
confiro o poema.
(Ele ainda está
na bolsa)
Alívio.
É preciso não fazer barulho.
Há um leitor em cada
esquina
- e se eu caio em desleixo -
o poema é roubado
e revelado:
versos
que não passam de alguns
rabiscos de criança.
Até que o poema acabe
Estaremos juntos
em juras de amor
corpos entrelaçados
beijos intermináveis.
Juntos
no possível e
no impossível
e na sede insaciável
de sermos
a dois.
Juntos
no desejo incontrolável,
na troca de olhares,
na trama profunda.
Estaremos juntos,
até que o poema acabe...
Acabou.
em juras de amor
corpos entrelaçados
beijos intermináveis.
Juntos
no possível e
no impossível
e na sede insaciável
de sermos
a dois.
Juntos
no desejo incontrolável,
na troca de olhares,
na trama profunda.
Estaremos juntos,
até que o poema acabe...
Acabou.
sexta-feira, 1 de junho de 2012
Canção para despertar
Levantemo-nos, é tempo de despertar. O sol cuidou de cochilar
até mais tarde para nos garantir a alvorada: despertemos. Acordemos a mulher
que dorme no berço de nossos quadris. Acordemos e marchemos, como lobas, em
busca do que nos foi roubado. Lutemos, mulheres, pelo direito de querer. Desejemos
o mundo; desejemos mais; desejemos sempre. Fantasiemos! Reivindiquemos o
direito de enxergar – com os nossos próprios olhos. E reaprendamos, enfim, a
ver com os olhos da alma. Gritemos, mulheres, com os nossos ovários. Façamos ecoar
as nossas vozes e as nossas canções. Recuperemos o poema. Recuperemos nossa
arte: pintemos, dancemos, escrevamos, teçamos. Falemos de nossas cicatrizes em
forma de versos, de nossos milagres em forma de quadros, de nossas conquistas
em forma de passos. Voltemos a contar histórias. Povoemos o mundo com os nossos
mistérios. Entremos nas cavernas do Feminino,
mergulhemos no profundo, no oculto, no vazio. Não temamos a solidão – que não
de passa de medo de nós mesmas. Tomemos posse de nossos corpos, reconquistemos
o direito de nos amar pela beleza natural que eles sustentam. Saboreemos a
doçura de ser o que se é. Encantemo-nos com as nossas estações e envelheçamos
honrando o poder dos ciclos. Permitamo-nos, mulheres, reconhecermo-nos umas nas
outras. Deixemos o sangue escorrer por
nossas pernas e manchar nossos pés de vermelho. De mãos dadas, brinquemos de
colorir o mundo de carmim. Experimentemos amar sem sacrifício e nos sentirmos
amadas sem esforço. Resgatemos nosso passado. Escutemos o Feminino milenar,
ancestral, universal, que nos une, nos acolhe e nos dota de língua própria.
Sejamos, assim, filhas da terra. Deixemos que o mar lave nossas feridas, que o
sol as transforme em cicatrizes, que a lua as manche de sentido. Libertemos a
nossa intuição – há tanto tempo condenada à tolice. Convoquemos nossa Andarilha,
convoquemos a Grande Mãe, a Velha Sábia, a Guardiã, a Bruxa, a Guerreira.
Convoquemos a Mulher, silenciada e proibida, a Mulher, humilhada e torturada, a Mulher enfraquecida. Demos de mamar para essa em nossos braços, revigoremos sua força e a abençoemos com o poder sobre si mesma. Avante, mulheres do mundo inteiro!
quarta-feira, 14 de março de 2012
Palavras não mencionadas
Sinto que você põe palavras no gatilho
enquanto a data de nossa conversa não chega.
Sinto que você calcula a mira de minhas feridas já abertas
- para que elas abram ainda mais.
Sinto que você está cronometrando a hora de se levantar
e ir embora e me deixar
com a dor de não ter lágrimas para chorar.
Sinto que você vai mencionar a palavra não mencionada:
adeus.
Sinto que você vai me convencer de que fui eu que insisti
pra ficar.
Sinto que você vai provar que fez esforço
para me mostrar que não era possível.
Sinto que, com isso, você quer destruir minha pureza.
Porque o que eu sou
fere o que você não é.
Sinto que você quer estilhaçar minha humanidade,
roubar minha verdade
condenar minha mulher.
E eu sinto que estou tão frágil
que, talvez, você consiga.
enquanto a data de nossa conversa não chega.
Sinto que você calcula a mira de minhas feridas já abertas
- para que elas abram ainda mais.
Sinto que você está cronometrando a hora de se levantar
e ir embora e me deixar
com a dor de não ter lágrimas para chorar.
Sinto que você vai mencionar a palavra não mencionada:
adeus.
Sinto que você vai me convencer de que fui eu que insisti
pra ficar.
Sinto que você vai provar que fez esforço
para me mostrar que não era possível.
Sinto que, com isso, você quer destruir minha pureza.
Porque o que eu sou
fere o que você não é.
Sinto que você quer estilhaçar minha humanidade,
roubar minha verdade
condenar minha mulher.
E eu sinto que estou tão frágil
que, talvez, você consiga.
v
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