domingo, 22 de fevereiro de 2015

Pequeno pedido pra você me levar

Como eu vou voltar
pra casa e refazer
sozinha
os caminhos que a gente fez
de mãos dadas?

v

sábado, 6 de dezembro de 2014

Poema de uma só folha (ou Poema para lhe consolar de um dia ruim)

Este é um poema
de uma só folha
para que, dobrado, caiba
em seu bolso
ou
para que torcido uma vez mais
habite pequeno em sua carteira.

É um poema para lhe acompanhar
aonde eu não puder alcançar
para ecoar
quando eu não puder segurar
para suportar
enquanto eu não puder insistir.

É um poema
para lhe consolar de um dia ruim
quando, ao fim dele,
eu não puder estar.

É um poema
para me acalmar
quando, por aí, você tiver fome
e eu não puder lhe alimentar.

É um poema para lhe afagar
quando algum fantasma lhe assustar
e eu não puder lhe proteger.

É um poema para você não esquecer
do que eu não puder lhe lembrar.

É um poema
para me desculpar
quando, em um dia ruim, eu, mulher pequena,
não puder lhe oferecer mais nada
além do meu pequeno amar.



domingo, 6 de julho de 2014

Poeminha testamento


Para Maria,
deixo aquele vestido
que há muito me havia pedido.

Para José,
deixo pequena renda
que lhe sirva em sua venda.

Para João,
deixo meu violão
e que sempre me lembre num samba-canção.

Para você
deixo uma arca
guardada embaixo da cama
cheia de rimas perdidas.


v
2008

sexta-feira, 7 de março de 2014

A verdade sobre o meu canto


Passarinho,
eu fiz um ninho
bem na beira da janela

Passarinho,
eu trancei os galhos

Passarinho,
eu enfeitei de flores

Passarinho,
eu trouxe comida e água

Mas, passarinho,
não pouse não
porque meu assobio é egoísta
e no fundo eu desconfio
que te amo
porque você voa.

v


segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Só por hoje

Eu sei que é uma questão
de matemática:
eu caibo em seus braços.
Seu abraço
tem a minha medida.

Mas só por hoje, amor, deixe
essa matemática de lado e 
descanse seus metros
em meu pequeno colo.

Só por hoje, amor, deixe
que eu lhe conduzo
Deixe que eu lhe carrego
Deixe que eu lhe consolo.

Só por hoje, amor, chore
que eu enxugo
Caia, que eu seguro
Peça, que eu resolvo

Eu resolvo seu mundo
num cafuné devagar
E desfaço suas guerras
com um beijo seguro.

Apenas esta noite, amor,
me entregue seus medos
Se deite assim frágil e 
adormeça suave
Enquanto eu rezo seu sono.

Só por hoje, amor:
caiba inteiro em meu colo... 
Só por hoje.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Retrato de uma alma abandonada



Eu? Eu entardeci muito cedo. Mal despontara a aurora de minha criança e já era tempo de recolher-se a casa... Junto ao sol, também se pôs minha leveza e credulidade pueril, restando em mim apenas a terrível melancolia do lusco-fusco. É por isso eu ainda nem completara a décima primavera, mas então padecia com a tristeza que abate a cidade no limbo dos astros - quando já findou o dia, mas a noite ainda não veio.
Nessas horas busquei ansiosa um olhar cúmplice que guardasse ao fundo, sempre ao fundo, um sutil desespero: o desespero de existir e saber que se existe. Mas as crianças são por demais distraídas e os adultos fugiam de minha pupila como quem apressa o passo para ignorar o pedinte. Tudo que desejava não era nada além de um abraço apertado, um longo abraço, que num suspiro quente sanasse o meu vazio. Enfim eu pude descobrir que a outra face do desespero é a solidão: e restei sozinha, mendiga da alma...


v

domingo, 8 de setembro de 2013

Manifesto pro homem feminista

Não adianta, homem,
salvar as mulheres na luta
se tua própria mulher
você trata como puta,
quando me deita em sua cama,
recita versos pra dizer que ama
e no dia seguinte
me paga com silêncio.

Pois veja, homem,
tire o seus óculos e veja
me veja.

Tem uma mulher em sua frente
que sente
que sofre
que quer mais do que data no calendário e
igualdade de salário

Tudo isso vale o grito,
mas igualdade mesmo
é ter um mundo que me veja.

Que veja as marcas dos tapas
que eu levei fora da transa,
por um homem que não me bate
mas que ignora meu olhar,
joga fora minha doçura,
não assume que procura
e vai embora sem enxergar que abandona.

Igualdade é viver em um mundo
que não me estupre desde pequena
com matemáticas absurdas sobre o que dizem ser amar.

Onde pra ter
eu tenho que negar,

e pra negar
eu tenho que fingir aceitar.

No fundo, o que esse homem
tá tentando me ensinar
é que eu não tenho direito de querer.
Tenho que calar
e aprender a encantar
sendo bonitinha
e covarde,

porque tenho que me deixar convencer
que minha paixão é loucura
e tenho que saber engolir
quando ele me faz ferir
com esse papo pós moderno
de que pode fugir porque não tem compromisso sério.

Nem parece o mesmo homem
que de bandeira levantada
defende respeito, compromisso e feminismo
E que tanto fala em companheirismo
sem verdadeiramente compreender
que ser companheiro é mais do que ideologia
que revolucionar é mais do quer romper burocracia.
e que acompanhar é mais do que marchar.

Ser companheiro é
não ter receio de cuidar
dessa que você invade com um beijo
e depois some,

dessa a quem você estende a mão
pra que se entregue nua
e depois despreza.

Não adianta, homem,
gritar coragem nas ruas,
se em teu próprio asfalto é você
que tem medo

e não sabe pedir ajuda.

v