quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Descobrimento


Sinto-me sozinha.
 Sem tristeza ou mágoa
apenas sozinha.

Talvez, quem sabe,
minha solidão guarde um espanto
como o daquele morador
que no levantar do sol,
todos os dias,
rega sua planta à janela e
toma seu café à mesa.

Pela manhã, cuida da casa
Ao meio dia, das comidas
À tarde tira um cochilo,
à noite termina suas tarefas
e, quando é tempo de ir à cidade,
está cansado e já tem sono 
outra vez.

Mas, em um dia qualquer,
exatamente quando o amarelo
começa a se diluir no azul da noite,
vê-se livre de tarefas
e sem sono.

Então se lembra
de quantas vezes pensou em ir à cidade,
mas adormeceu cansado no sofá...

Arruma-se todo e
finalmente
atravessa a porta de sua casa.

Mas, ora vejam,
não passa ninguém às ruas,
não há ninguém nos edifícios e nas lojas,
não há trânsito,
 não há barulho,
os cachorros sumiram e os pássaros também se foram.

Não há nada
nem nunca houve:
ele é o único morador de um país imenso.  

v
Março, 2010

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Pra você

Alguns textos de Caio
Algumas canções de Chico
Algumas versões de Bethânia
e uns versos de Vinícius.

Os que falem sobre o impossível
os que digam da tristeza
e um apenas
sobre o medo
do amor.

Todos
embalados e
deixados na porta de sua casa, pois
parto em viagem
e, na véspera da partida,
já não sei
escrever.

O que eu haveria de dizer
pra você
que me olhou
com olhos de amar
e fugiu?

v

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Bilhetinho pregado na porta da geladeira


Precisei ir trabalhar, mas deixei 
poemas 
espalhados pela casa:

um em cima da estante,
outro na gaveta do armário
e dois guardados na dispensa.

Estendi uns decassílabos 
no varal 
E enrolei versos livres
em seu lençol.

Ah! Não esqueça da rima que ficou 
cozinhando na panela: 
é pro almoço.

E caso eu não chegue até 
às quatro,
tem um soneto (de amor)
escondido
embaixo do tapete.

v

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Dentro de mim

Há um armário
fechado.

Dentro do armário,
uma gaveta
trancada a chaves.

Dentro da gaveta,
uma caixa
bem lacrada.

Dentro da caixa,
enrolada em papel manteiga,
eu guardo uma dor
profunda
e dilacerante.

(A senha para abrir
o cadeado é:
p_o_e_s_i_a)

domingo, 3 de junho de 2012


Há um leitor em cada
esquina
À espreita.

É preciso estar atento.

Rapidamente
escondo o poema
dentro da bolsa
e aperto-a contra o corpo.
Observo.

É preciso ter cuidado.

Há um leitor em cada
esquina
À espera.

Sorrateiramente
confiro o poema.
(Ele ainda está
na bolsa)
Alívio.

É preciso não fazer barulho.

Há um leitor em cada
esquina
- e se eu caio em desleixo -
o poema é roubado
e revelado:

versos
que não passam de alguns
rabiscos de criança.

Até que o poema acabe

Estaremos juntos
em juras de amor
corpos entrelaçados
beijos intermináveis.
Juntos
no possível e
no impossível
e na sede insaciável
de sermos
a dois.
Juntos
no desejo incontrolável,
na troca de olhares,
na trama profunda.

Estaremos juntos,
até que o poema acabe...



Acabou.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Canção para despertar



Levantemo-nos, é tempo de despertar. O sol cuidou de cochilar até mais tarde para nos garantir a alvorada: despertemos. Acordemos a mulher que dorme no berço de nossos quadris. Acordemos e marchemos, como lobas, em busca do que nos foi roubado. Lutemos, mulheres, pelo direito de querer. Desejemos o mundo; desejemos mais; desejemos sempre. Fantasiemos! Reivindiquemos o direito de enxergar – com os nossos próprios olhos. E reaprendamos, enfim, a ver com os olhos da alma. Gritemos, mulheres, com os nossos ovários. Façamos ecoar as nossas vozes e as nossas canções. Recuperemos o poema. Recuperemos nossa arte: pintemos, dancemos, escrevamos, teçamos. Falemos de nossas cicatrizes em forma de versos, de nossos milagres em forma de quadros, de nossas conquistas em forma de passos. Voltemos a contar histórias. Povoemos o mundo com os nossos mistérios.  Entremos nas cavernas do Feminino, mergulhemos no profundo, no oculto, no vazio. Não temamos a solidão – que não de passa de medo de nós mesmas. Tomemos posse de nossos corpos, reconquistemos o direito de nos amar pela beleza natural que eles sustentam. Saboreemos a doçura de ser o que se é. Encantemo-nos com as nossas estações e envelheçamos honrando o poder dos ciclos. Permitamo-nos, mulheres, reconhecermo-nos umas nas outras.  Deixemos o sangue escorrer por nossas pernas e manchar nossos pés de vermelho. De mãos dadas, brinquemos de colorir o mundo de carmim. Experimentemos amar sem sacrifício e nos sentirmos amadas sem esforço. Resgatemos nosso passado. Escutemos o Feminino milenar, ancestral, universal, que nos une, nos acolhe e nos dota de língua própria. Sejamos, assim, filhas da terra. Deixemos que o mar lave nossas feridas, que o sol as transforme em cicatrizes, que a lua as manche de sentido. Libertemos a nossa intuição – há tanto tempo condenada à tolice. Convoquemos nossa Andarilha, convoquemos a Grande Mãe, a Velha Sábia, a Guardiã, a Bruxa, a Guerreira. Convoquemos a Mulher, silenciada e proibida,   a Mulher, humilhada e torturada, a Mulher enfraquecida. Demos de mamar para essa em nossos braços, revigoremos sua força  e a abençoemos com o poder sobre si mesma. Avante, mulheres do mundo inteiro!